quarta-feira, 2 de março de 2011

A arte do palhaço conquista Itajaí


Reportagem publicada no Jornal Cobaia da UNIVALI em 30 de junho de 2010. A mesma matéria pode ser encontrada no site do setor de Arte e Cultura da UNIVALI.

Por Camila Gonçalves e Clara Rosália

O público é seleto, cerca de 25 pessoas. A maioria ligada ao teatro. Toc, toc, toc... A plateia, ao lado de fora, olha espantada para a porta, que se mantém fechada. Toc, toc, toc... O barulho vem de dentro.

- Oh gente, quando eu bater é pra vocês entrarem, tá!?.

A fala é de um jovem caracterizado de palhaço pouco depois de abrir a porta.
Nem palco, nem picadeiro. A passagem é para uma sala no Serviço Social do Comércio (Sesc) de Itajaí, onde jovens atores aguardam a entrada da plateia. Esta é a terceira oficina de palhaço no município - a segunda ministrada pela atriz argentina Laura Correa, de 33 anos. Hoje, a arte do palhaço também é conhecida como Clown, palavra de origem inglesa já introduzida na Língua Portuguesa.

O estudo sobre palhaços vem conquistando os atores da cidade. Segundo o responsável pelo setor de cultura do Sesc, Marcelo Moraes, a primeira oficina específica sobre o tema no município foi em 2008. E o estudo especializado começou bem, tendo como professor, nada menos que o ator Pepe Nuñez. Nascido na Espanha, veio para Florianópolis em 2000 e é considerado um dos maiores palhaços do Brasil e reconhecido internacionalmente. Este ano, voltou a Itajaí para continuar a formação de Clowns com uma segunda oficina.

O ator e diretor Valentim Shmoeler, de 54 anos, comenta que a vinda de Pepe Nuñez a Itajaí instigou os jovens a se aprofundarem na arte de fazer rir. Mas lembra que há décadas o palhaço está presente no meio artístico da cidade, inserido em peças teatrais. Muitas vezes, explica Valentim, trabalha nas suas montagens com o palhaço, de uma forma sutil, sem o adereço mais característico do personagem, o nariz. Charles Chaplin é um grande exemplo de palhaço que dispensou o narigão vermelho. “Tomara que essa moda pegue pra valer, que se leve a sério, se aproveite e disso saia uma grande palhaçada”, brinca Valentim.

Enquanto jovens atores desbravam a arte clown, o público catarinense já está acostumado com grandes palhaços. O Teatro Biriba faz sucesso e só em Itajaí passou um ano em temporada. Ano passado Florianópolis sediou o Anjos do Picadeiro – Encontro Internacional de Palhaços.

Linguagem do palhaço como ferramenta de estudo

Embora tenha antecessores, como os palhaços interpretados por Guilherme Peixoto, da Companhia Mútua, e Sebastião Oliveira, o Seba, só em 2008 foi criado um grupo específico de clown em Itajaí. Charles Augusto, de 24 anos, e a colega Ana Peres Batista fundaram o Laboratório Experimental de Gargalhadas, Urros, Música Etc..., o L.E.G.U.M.E Palhaços. A dupla trabalha em Itajaí e Blumenau, com espetáculos e intervenções nas ruas. No último fim de semana de maio deste ano, o L.E.G.U.M.E. iniciou um grupo de estudos em Itajaí para se aprofundar na linguagem do palhaço. Ospália – Coletivo de Palhaços em Pesquisa, reúne 15 pessoas todos os fins de semana até agosto na sede do grupo teatral Porto Cênico. O ator James Beck, de Blumenau, foi convidado para orientar o grupo.

“O movimento está se iniciando. As pessoas começaram a estudar de dois anos pra cá”, comenta Charles Augusto. O ator se refere à primeira oficina de clown em Itajaí, com Pepe Nuñez. O próprio Charles, depois de fazer a oficina, vislumbrou o palhaço como profissão.
Palhaço é pra adulto

É noite de quarta-feira, dia 03 de junho, no Teatro Municipal de Itajaí. O palhaço Pepe surge da ultima fileira, apressado e carregando um guarda-chuva aberto. Até chegar ao palco vai pedindo passagem entre as poltronas. Muitas crianças fazem parte da plateia. Hoje elas são um grande público “consumidor” de palhaços, mas a arte do clown é bem mais adulta do que muita gente pensa. Ela não foi feita para os pequenos. “Basicamente, o palhaço é um crítico da ordem estabelecida e mostra o lado oculto (...) só que faz isso através do riso, da poesia, do lirismo”, explica Pepe Nuñez.

A intenção é rir de si mesmo, dos erros e bizarrices que tentamos esconder em público. O palhaço pode ser considerado símbolo da pobreza e do atraso do sistema econômico e social. As roupas desconcertadas no tamanho mostram que foram doadas por alguém maior ou menor que o palhaço. O nariz ficou avermelhado depois de tanto se embebedar. E é esta decadência e vulnerabilidade que atrai tanta gente para arte do Clown. A curiosidade sobre esta arte milenar hoje é tendência mundial.

Pepe, com seus 25 anos de experiência como palhaço, trabalha nas oficinas o crescimento pessoal e o autoconhecimento dos alunos. Conta que muitos atores chegam armados, tentando interpretar um personagem já escrito. Mas, o palhaço é natural. É a busca pelo próprio lado cômico.

A atriz Laura Correa é formada em Buenos Aires em Artes Cênicas e Cinematográfica. Ministrou duas das quatro oficinas de clown em Itajaí. “Para mim, o clown é uma liberdade expressiva para o ator”. Para Valentim Shmoeler, o ator quando interpreta um bom palhaço está no auge da profissão, tamanha é a dificuldade de se construir e atuar como clown.

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